domingo, 27 de junho de 2010

* A BESTA FERA DO SERTÃO

A besta fera do sertão
Ivan Ferretti Machado

Esse caso aconteceu há muitos anos atrás, em uma cidadezinha brasileira, encravada ali pelo sertão nordestino. E devido à quantidade de anos que já se passaram, não consigo recordar-me claramente do nome da cidade e nem os nomes das pessoas. Todavia isso não vem ao caso porque também não sou muito de dar nomes verdadeiros aos
personagens das minhas histórias.
Existia nesse lugar, um tal de Coronel Malaquias,
dono de uma enorme extensão de terra ali naquela região. E tudo começou a ficar meio complicado para esse tal de Coronel Malaquias, quando o progresso começou a chegar por aquelas bandas. Por seu azar uma estrada de ferro foi construída por ali e dividiu as suas terras ao meio. A princípio ele até gostou, pois com certeza iria valorizar as suas terras. Só que com o passar do tempo começaram a surgir os problemas. Toda vez que o trem passava, morria atropelado de dois a três animais do seu rebanho.

----Desse jeito eu tô ferrado!
Cada vez que o trem passa ele mata os meus bichos!--Reclamou o coronel com o seu capataz.

----E hoje cedo morreram mais dois! --Explicou-lhe o capataz.

----Puta que pariu! Não tô dizendo! A gente tem que dar um jeito!

----Ué! Mas fazer o quê coronel? Amarrar eles na hora que o trem
passar não dá! Tem mais de trezentas cabeças de gado!

----Eu sei que não dá! Não precisa me dizer isso por que eu não
sou burro não. Nós vamos fazer o seguinte; me contrata um cabra, que seja
de pouca paga, prá ficar ali tomando conta do rebanho quando o trem passar.

----È... pode ser que de certo, coronel! É só ele ficar de olho e não deixar
o rebanho ficar muito perto dos trilhos do trem. -- concordou o capataz.

E sendo assim, no mesmo dia, arrumaram um cabra prá tomar conta
do rebanho quando o trem passasse. Um tal de Zeca Zarolho. Um pobre
coitado do "zóio" tudo torto, feio que dava dó. Daqueles cabras bem
chucro mesmo, completamente analfabeto e que não sabia nem mesmo
conversar direito. E o pior de tudo; nunca tinha visto um trem em toda
a sua vida.
E lá foi o pobre diabo cumprir a sua missão. Apenas explicaram prá ele
que era pra tomar conta do rebanho quando o trem passasse. E o
descambelhado ficou ali matutando consigo mesmo, que diacho de
bicho era aquele que já havia matado mais de vinte animais. Segurou
firme a espingarda, correu os olhos pelo descampado e murmurou:

----Cruz credo! Que Deus me proteja desse bicho! Num quero nem

saber... se o lazarento aparecer por aqui eu prego fogo!

E tava ele ali pensando com seus botões, quando ouviu lá longe um apito

meio estranho. E aquilo foi chegando e aumentando cada vez mais o
barulho. Era o trem que vinha se aproximando. Apitando, soltando
fumaça, e fazendo uma barulheira desgraçada à medida que se
aproximava.
Ah, não deu outra! O coitado do Zeca Zarolho se cagou todo. Largou a

sua espingardinha e saiu numa carreira tão desgraçada, que só parou
quando encontrou o capataz que vinha vindo para verificar se estava
tudo bem.
O coronel quase teve um enfarte. Desta vez morreram seis animais.

----Me chamem esse desgraçado que eu quero falar com ele!-- ordenou o
coronel.

Trouxeram o infeliz à presença do coronel.

----Ô seu cabra bexiguento de uma figa! Eu te coloco lá pra tomar conta

do meu rebanho e você abandona o seu posto deixando que seis animais
morressem atropelados! Seu cabra safado... incompetente!

O coitado do homem com os olhos esbugalhados e tremendo, ainda,

feito vara verde tentou se justificar.

----Coronel... se o senhor visse o tamanho do bicho que vinha vindo em

minha direção soltando fumaça pelas ventas, prá tudo quanto era lado,
e urrando feito um demônio abestaiado, com certeza teria feito a
mesma coisa. E te digo mais; a minha sorte é que o bicho vinha vindo de
cumprido, por que se ele vem de atravessado tinha era matado eu com
boiada e tudo!





* A MESMA MERDA

A MESMA MERDA
Ivan Ferretti Machado

Os dois compadres encontraram-se, naquela manhã de domingo, ali na vendinha do Seu Anacleto e, após os cumprimentos costumeiros, começaram a bebericar umas cangebrinas e a papear aquelas conversinhas corriqueiras de todos os dias. Prosa vai prosa vem, e de repente, do nada, um dos compadres começa com uma conversa meio sem pé e sem cabeça.

----Sabe... cumpadre Bastião, eu tô aqui pensando cus meus botões um
troço meio engraçado!

----Uai cumpadre! Pensando o quê?

----Sabe o que é cumpadre... nóis tá qui cunversando numa boa, sem
prercupação nenhuma e... sei lá... de repente te dá um troço e vós mecê morre!

----Vichi cumpadre! Sê tá ficando doido? Vira essa boca prá lá sô!!!

----Não, cumpadre Bastião, é só de cumparação cunquê eu pensei!

----Uai! Mais num tem outra coisa mió pra se pensar não!

----È qui vós mecê num intendeu ainda qui é só de brincadeirinha!

----Ah bom! Se é só brincadeirinha então continua a história!

----Sim... conforme eu tava dizendo... te deu um troço e vós mecê
morreu. Ai, então, depois daquela choradeira toda, a gente vai e te enterra. Tá escutando compadre Bastião?

----É lógico que tô! Eu não sou surdo!

----Pois bem! Depois de enterrado, vós mecê, fica ali debaixo da terra
apodrecendo e acaba virando adubo pra terra. Certo!

----Certo!

----Ai, então, depois de um certo tempo nasce na sua cova uma grama
bem verdinha. E de repente vem uma vaca e come toda a grama da sua cova. Logicamente como tudo que entra tem que sair, numa certa hora a vaca dá uma cagada e solta àquele baita monte no chão. Eu olho para aquilo espantado e comento:

----Nossa cumpadre como o senhor mudou!

O compadre Bastião ouviu toda aquela história pacientemente e no
final apenas olhou matreiro, com o canto dos olhos, para o outro compadre e não disse nada. Apenas tirou do bolso, o seu cigarro de palha, acendeu, deu uma tragada e uma guspida pro lado e arrematou:

----Sabe cumpadre Vitalino, dias desse eu pensei a mesma coisinha que
o senhor!

----È mesmo cumpadre? Num brinca! E como foi?

----Eu pensei o seguinte: O senhor tá ai bonzinho cunversando e de
repente te dá um troço e vós mecê morre. Ai, então, depois daquela choradeira toda, iguarzinho no meu velório, a gente vai e te enterra. Depois o senhor fica ali apodrecendo até virá adubo prá terra, e após algum tempo nasce, também, na sua cova uma grama bem verdinha. Certo?

----Certo!

----Pois bem, ai então, da mesma maneira, aparece uma vaca e come

toda aquela grama que havia nascido na sua cova. E como vós mecê
mesmo havia dito, tudo que entra tem que sair... de repente a vaca dá uma tremenda de uma cagada e solta àquele baita monte no chão. Eu olho para aquilo sem nenhuma surpresa e comento em voz alta:

----Nossa cumpadre!. Vós mecê num mudou nada! Continua a mesma merda!!!



* O HOMEM QUE NUNCA ERROU

O homem que nunca errou
Ivan Ferretti Machado

Certo dia um Padre passava por uma cidadezinha quando percebeu um grande alvoroço próximo a uma praça daquele pacato lugar. Aproximou-se curioso para ver o que estava acontecendo. Vários pessoas seguravam um pobre homem querendo amarrá-lo a um poste. O infeliz debatia-se desesperadamente na tentativa de desvencilhar-se de seus agressores. O padre ao presenciar aquela cena correu em seu auxílio.

----Parem! Parem! O que estão fazendo?

Um dos homens adiantou-se e respondeu:

----Nós vamos apedrejar esse pecador!

O padre ao ouvir aquilo opôs-se de imediato.

----Voces estão ficando loucos? Onde já se viu apedrejar um ser humano! Parem com isso!

Um outro homem adiantou-se , também, e retrucou:

----Este homem é um pecador! Tem que pagar pelo seu erro!

O bom padre tentou argumentar:

----Muito bem! Voces estão dizendo que este homem tem que pagar pelo seu erro! Pois então que atire a primeira pedra aquele que nunca errou!

Derrepente sai, do meio da multidão, um homem e dá uma tremenda de uma pedrada na cabeça do pobre infeliz. O padre, num mixto de surpresa e perplexidade, se interpôs entre o agressor e o pobre do homem atingido pela pedrada, que agora sangrava às bicas.

----Você é doido! Onde já se viu tremenda maldade! Por acaso você nunca errou em sua vida!

O homem, completamente embebecido de vaidade, respondeu:

----Ah seu padre! Numa distância dessa eu não erro nem fodendo!

terça-feira, 8 de junho de 2010

* A LETRA "P"


A LETRA "P"
Ivan Ferretti Machado
Pedro Paulo Pereira Pinto, pequeno pintor português, pintava portas, paredes, portais. Porém, pediu para parar porque preferiu pintar panfletos. Partindo para Piracicaba, pintou prateleiras para poder progredir.
Posteriormente, partiu para Pirapora. Pernoitando, prosseguiu para Paranavaí, pois pretendia praticar pinturas para pessoas pobres. Porém, pouco praticou, porque Padre Paulo pediu para pintar panelas, porém posteriormente pintou pratos para poder pagar promessas.
Pálido, porém personalizado, preferiu partir para Portugal para pedir permissão para papai para permanecer praticando pinturas, preferindo, portanto, Paris.
Partindo para Paris, passou pelos Pirineus, pois pretendia pintá-los. Pareciam plácidos, porém, pesaroso, percebeu penhascos pedregosos, preferindo pintá-los parcialmente, pois perigosas pedras pareciam precipitar-se principalmente pelo Pico, porque pastores passavam pelas picadas para pedirem pousada, provocando provavelmente pequenas perfurações, pois, pelo passo percorriam, permanentemente, possantes potrancas.
Pisando Paris, pediu permissão para pintar palácios pomposos, procurando pontos pitorescos, pois, para pintar pobreza, precisaria percorrer pontos perigosos, pestilentos, perniciosos, preferindo Pedro Paulo precaver-se.
Profundas privações passou Pedro Paulo. Pensava poder prosseguir pintando, porém, pretas previsões passavam pelo pensamento, provocando profundos pesares, principalmente por pretender partir prontamente para Portugal. Povo previdente! Pensava Pedro Paulo... Preciso partir para Portugal porque pedem para prestigiar patrícios, pintando principais portos portugueses. - Paris! Paris! Proferiu Pedro Paulo.
Parto, porém penso pintá-la permanentemente, pois pretendo progredir. Pisando Portugal, Pedro Paulo procurou pelos pais, porém, papai Procópio partira para Província. Pedindo provisões, partiu prontamente, pois precisava pedir permissão para papai Procópio para prosseguir praticando pinturas.
Profundamente pálido, perfez percurso percorrido pelo pai. Pedindo permissão, penetrou pelo portão principal. Porém, papai Procópio puxando-o pelo pescoço proferiu: Pediste permissão para praticar pintura, porém, praticando, pintas pior. Primo Pinduca pintou perfeitamente prima Petúnia. Porque pintas porcarias? Papai - proferiu Pedro Paulo - pinto porque permitiste, porém, preferindo, poderei procurar profissão própria para poder provar perseverança, pois pretendo permanecer por Portugal.
Pegando Pedro Paulo pelo pulso, penetrou pelo patamar, procurando pelos pertences, partiu prontamente, pois pretendia pôr Pedro Paulo para praticar profissão perfeita: pedreiro! Passando pela ponte precisaram pescar para poderem prosseguir peregrinando.
Primeiro, pegaram peixes pequenos, porém, passando pouco prazo, pegaram pacus, piaparas, pirarucus. Partindo pela picada próxima, pois pretendiam pernoitar pertinho, para procurar primo Péricles primeiro. Pisando por pedras pontudas, papai Procópio procurou Péricles, primo próximo, pedreiro profissional perfeito.
Poucas palavras proferiram, porém prometeu pagar pequena parcela para Péricles profissionalizar Pedro Paulo. Primeiramente Pedro Paulo pegava pedras, porém, Péricles pediu-lhe para pintar prédios, pois precisava pagar pintores práticos. Particularmente Pedro Paulo preferia pintar prédios.
Pereceu pintando prédios para Péricles, pois precipitou-se pelas paredes pintadas. Pobre Pedro Paulo pereceu pintando...
Permita-me, pois, pedir perdão pela paciência, pois pretendo parar para pensar... Para parar preciso pensar.
Pensei. Portanto, pronto parei.

E você ainda se acha o máximo quando consegue dizer:
"O Rato Roeu a Rica Roupa do Rei de Roma"