quarta-feira, 24 de novembro de 2010

* VOCÊ NÃO SABE O QUE É CONSCIÊNCIA

VOCÊ NÃO SABE O QUE É CONSCIÊNCIA
Ivan Ferretti Machado

Ano passado encontrei-me com o Tião Budega, ali na 25 de Março, região central de São Paulo. Fazia um calor de mais ou menos uns 30º, e o Tião estava parado próximo a uma banca de jornal com o seu isopor vendendo refri e cerveja. O Tião é um alemãozinho encruado, de mais ou menos 40 anos, sossegado como ele só. Dizem os amigos que uma vez o deixaram tomando conta de duas tartarugas, e por incrível que pareça uma fugiu e a outra morreu de tédio. Perguntei ao Tiãozinho como é que estava a vida, e ele naquele sossego todo, me olhou mansamente e depois de alguns segundos respondeu que estava tudo mais ou menos bem.

----Ué, mas por que mais ou menos bem? --Perguntei

----Ah rapaz... Dias destes tive um prejuízo danado. Perdi toda a minha mercadoria!

----Não Brinca Tião! Foi o rapa?

----Que nada, foi um pessoal ali no Anhangabaú!

----Mas como aconteceu? Te roubaram na cara larga?

Nesse momento fomos interrompidos por um rapaz que pediu um refrigerante. O Tiãozinho atendeu o cliente e continuou a conversa.

----Pois então rapaz! Foi no feriado da Consciência Negra!

----Na semana passada, então? --Indaguei.

----Isso mesmo! Na semana passada! --Confirmou ele.

----E o que você estava fazendo ali pelos lados do Anhangabaú! Ali só tem nóia, boiola e prostituta!

----Eu sei, mas é que teve a festa da Consciência Negra, e eu fui até lá dá um trampo...

Parou novamente para atender a uma senhora, que perguntou como fazia para se chegar até a Galeria Pagé. Dava até sono de ver ele dando explicação. Meu Deus do céu como podia ser tão sossegado daquele jeito.
Diziam, os mesmos amigos, que o Tião pra morrer de repente levaria umas duas semanas.
Depois de ter explicado pra coitada da mulher, que se tivesse saco, teria ficado com ele cheio, retornou a conversa.

----Ai eu cheguei lá no Anhangabaú mais ou menos às duas horas da tarde, e já estava lotado. E logicamente, dia da consciência negra, tinha uma negraiada danada lá. E eu ali com o meu carrinho de isopor carregado até a boca de cerveja, pensei comigo: --Hoje eu lavo a égua!

----E tava um calorão danado no feriado, né! --Comentei com ele.

----Tava! E por isso mesmo eu achei que ia vender cerveja pra caramba ali no meio daquele mundaréu de gente. E eu rapaz, cai na besteira de entrar bem lá no meião, onde tava uma muvuca danada, e foi ai que aconteceu a merda.

----Não brinca Tião! --Interrompi já imaginando mais ou menos o que havia acontecido.

----Eu só sei que começou a juntar de gente em volta do carrinho, e eu muito besta pensei que eles queriam comprar. Que nada... Viraram o meu carrinho de pernas pro ar, e foi cerveja que voou pra tudo quanto era lado.
Rapaz eu só sei que se formou um salseiro danado, me roubaram toda a cerveja e a única coisa que eu consegui salvar foi o carrinho, pois o isopor eles arrebentaram tudo.

----Puxa vida Tião! Mais que zica da porra heim! --Comentei penalizado com a situação dele.

----Zica? Põe zica nisso! E vou te dizer mais uma coisa! O dia era da Consciência Negra, mas aqueles negrão ali... Não tinham consciência nenhuma!

Controlei-me ao máximo pra não me estourar de rir, pois seria muito engraçado se não tivesse sido tão trágico. Pelo menos para o Tião Budega, coitado.

* É A CARA DO PAI

É A CARA DO PAI
Ivan Ferretti Machado

Eu não sei de onde a Tia Nenê sacou aquela tirada. Eu só sei que tem neguinho dando risada até agora. Quem não gostou muito foi o Alexandre, que na hora, deu aquela risadinha amarela e depois fechou a cara.
O fato desenrolou-se no último domingo na casa da Tia Regina. A família ali toda reunida, comemorando o aniversário do Tio Pinga, que alias já fazia quase dez anos que vinha prometendo uma bendita churrascada, mas infelizmente durante esse tempo todo ficou só na promessa. Todavia agora ele resolveu tirar o cadeado do bolso e bancou o tão prometido boi na brasa.
E como eu havia comentado lá no começo da história, a família estava toda ali reunida, inclusive o Alexandre da Tia Fia, papai fresco, a criança nasceu há aproximadamente dois meses e ele estilo paizão coruja não parava um segundo de lamber a criança. E logicamente a família toda babando em cima do pequerrucho. Até que a certa altura o Alexandre se achou ser a última bolachinha do pacote quando alguém comentou que a criança era linda, e ele complementou dizendo:

---- È a cara do pai.

Foi ai, então, que a Tia Nenê gritou lá do fundo:

----Larga mão de ser besta! Não fica pondo complexo na criança!

Tem neguinho dando risada até agora.

*NEM DEPOIS DE MORTO

NEM DEPOIS DE MORTO
Ivan Ferretti Machado

Dias destes estávamos em uma rodinha, comentando vários assuntos, quando alguém se pronunciou sobre as injustiças cometidas contra certas pessoas, que só são homenageadas depois que morrem. Todos concordaram com a colocação feita pelo colega.
Realmente as pessoas deveriam ser homenageadas quando ainda vivas. Para que homenagens depois que se está a sete palmos de profundidade. O cara não vai presenciar bulufa alguma. Não vai receber nem um tapinha nas costas, nem vai ler nenhum comentário no recanto das letras feito por algum poeta que admirava o seu trabalho. Então prá que homenagens depois que o cara virou presunto.
O que se tem que fazer que seja feito em vida. Depois de morto eu quero mais é que se ferre a corneta do corneteiro.
Estávamos para bater o martelo, com o parecer unânime de todos sobre esse assunto, quando o Alfredinho, quase 80 anos sobre o esqueleto, "véio" maloqueiro como ele só, que apesar da idade, ainda curte bailes ali no "Carinhoso", "Cartola”, e "Casa do Sargento", salões famosos da paulicéia desvairada, se pronunciou ao contrário. Pedimos então que ele nos esclarecesse o motivo da sua discordância.
O Alfredinho com aquele seu jeitão sossegado, e com aquele sotaque meio italianado, começou a explicar o porquê de não concordar com os demais:

----Suponhamos que de repente, alguém da nossa comunidade, resolva fazer um movimento em prol da aprovação, na câmara dos vereadores, para que a nossa rua receba o nome do padre da nossa paróquia. Até ai tudo bem. O religioso ainda está vivo e o projeto foi aprovado. No dia da festa aparece uma banda tocando uns dobrados, rojões pra tudo quanto é lado e um monte de político querendo se aparecer. O padre sobe lá no palanque faz um discurso, o subprefeito faz outro, arma-se um puta de um auê, ai vai todo mundo dar tapinhas em suas costas e cumprimentá-lo. Certo?

----Certo! --concordamos com o Alfredinho.

----Pois bem... Depois de alguns meses, após essas frescuradas todas, acontece o que? Descobrem que o padre está envolvido com pedofilia! Pronto é jornal, televisão, rádio, internet e mais uma porrada de coisa. Resumindo... É assunto pra mais de mês!... E ai???

----Porra Alfredinho... Sabe que eu não tinha pensado nisso! - Exclamei, com certa surpresa!

----Não, né! Então vou te dar outro exemplo. Tem um monte de vereador ai, puxa-saco que só a porra, que de repente resolve mudar o nome da praça das laranjeiras não sei lá das quantas, de algum lugar qualquer da periferia, só para agradar algum juiz famoso, montado na bufunfa, dando ao logradouro o nome do figurão. E da mesma maneira, que aconteceu com o padre, acontece também com esse juiz. Aquela festança toda, enfeitam o pavão de tudo quanto é jeito, e ai, depois de alguns meses descobrem que o safado está envolvido com um monte de coisas erradas. Já pensou que baita desconforto; morar em uma praça onde a pessoa que lhe emprestou o nome é na verdade um puta de um salafrário!

E realmente, no final, todos acabaram por concordar com o Alfredinho. È melhor esperar o cara morrer para se ter a certeza que ele não vai

aprontar nenhuma cagada depois de homenageado.
O Joel, após concordar com o Alfredinho, brincou com ele:

----Nós estávamos pensando em por o seu nome aqui na nossa rua, mas pensando bem é melhor esperar você morrer primeiro. Vai que a gente faz uma tremenda de uma festa em sua homenagem, e depois de alguns meses pegam você dando o rabo ai pra alguém! Já pensou que mancada?

----Ehhh! Sai prá lá! Aqui não, meu! -- Esbravejou o Alfredinho.

----Sei lá! Dizem que o tesão nunca acaba, ele só muda de lugar!

----È, mais aqui não vai mudar não! Pode tirar o seu Cavalinho da chuva!
Aqui... Meu filho... Nem depois de morto!

Depois de muita risada, mudamos de assunto e continuamos a conversa.



segunda-feira, 22 de novembro de 2010

* O ESPIRRO FATAL

O ESPIRRO FATAL
Ivan Ferretti Machado

Na minha época, há muitos anos, e já faz anos para caramba, estudávamos até o quarto ano primário, conhecido atualmente pelo apelido de quarta série do fundamental I, e já recebíamos um diploma. A maioria parava por ai mesmo e zéfini. Um ou outro seguia em frente e se formava no ginásio, quando, então, recebiam um outro diploma que era o da oitava série ginasial, e pronto, o cara já era considerado um doutor.
Pois bem esse caso que conto agora, ocorreu exatamente com os alunos do quarto ano primário.
Quase no fim do segundo semestre, a professora Terezinha adoeceu, e mandaram uma outra professorinha para substituí-la. Uma jovem, muito bonita por sinal, aparentando ter mais ou menos uns 19 anos. Já no primeiro dia, a professorinha começou com uma espirração danada dentro da sala de aula, que não acabava mais. A pobrezinha era alérgica a aquele terrível pozinho produzido pelo bastão de giz. E toda vez que ela espirrava, pronto, era aquela zoeira. A sala, a um só coro, berrava saúde para ela. Era mais pela tiração de sarro, que pela educação.
Passou-se quase uma semana com aquela farra-do-boi abestaiada. Era só a professora espirrar e a sala se transformava num verdadeiro salseiro. Até que ela, ao perceber que já estava virando
bagunça, resolveu por um ponto final naquilo. Explicou a todos que ela era alérgica ao pó de giz, e que por isso não seria mais necessário gritar saúde toda vez que ela espirra-se. Só que, justo
neste dia, o Robertinho, que sentava lá fundo, faltou à aula, e consequentemente não ficou sabendo do comunicado que a professorinha havia passado.
Tudo bem, no outro dia o Robertinho apareceu, e assim que tocou o sinal, todos os alunos formaram a fila e entraram para a sala de aula, acompanhados da professora. Assim que ela terminou de fazer a chamada, corrigiu os deveres de casa, e dirigiu-se a lousa para passar a lição do dia. Pronto... Foi só ela começar a escrever, e não passou quase nada, já deu um tremendo de um espirro. Todos já sabiam que não era mais para gritar saúde, e por isso cada um ficou na sua, menos o pobre do Robertinho que havia faltado no dia anterior, e lá do fundo, educadamente, berrou:

----Foda-se!!!