sábado, 8 de maio de 2010

Adivinha quem vai morrer amanhã?

Adivinha quem vai morrer amanhã?
Ivan Ferretti Machado

Ele odiava aquele pássaro. Chamava-o de bicho agourento. Força do mal. Filho do diabo. Toda vez que flagrava o pássaro sobre o telhado de alguma casa, pronto, podia contar que nos próximos dias alguém morreria naquele local.

----Mas que pássaro é esse Kalu? -Perguntavam para ele.

----Eu não sei o nome dele não! Não existe em livro nenhum escrito pelo homem! Já procurei e não consegui encontrar! Ele é todo preto e tem o cantar tão fúnebre que se assemelha com as noites de céu fechado, quando a gente não vê nem lua e nem estrelas. -Respondia ele.

O gozado é que ninguém nunca tinha visto o tal pássaro. O único que vez ou outra dizia tê-lo visto era o Kalu. As pessoas o achavam meio estranho, alguns até tinham medo dele, diziam que ele mexia com feitiçaria. Muitos dizem tê-lo visto várias vezes, de madrugada, vagando pelas ruas com seu inseparável cachorro preto, que atendia pelo nome de capeta.
Quase não conversava, e quando abria a boca era para falar sobre o tal pássaro. E por incrível que pareça ele nunca errava em suas previsões. Não falava direto para a pessoa, mas sempre comentava com alguém.

----Essa madrugada eu vi o agourento sobre o telhado da casa de fulano, pode contar que a gente vai ter notícia ruim nos próximos dias!

E não dava outra. Passavam-se alguns dias e morria alguém ali naquela casa.

----Caramba! Antes de ontem o Kalu comentou comigo que tinha visto o tal pássaro no telhado da casa do Moacir. Quando foi hoje cedo veio a notícia que o pai dele tinha falecido.

----Besteira! Eu não acredito nisso não! Foi pura coincidência!

Era sempre assim, toda vez que morria alguém, surgia a conversa de que o Kalu tinha visto o tal pássaro naquela casa. Uns acreditavam e defendiam com unhas e dentes as previsões agourentas do Kalu. Outros torciam o nariz e diziam que era tudo besteira. Nada daquilo era verdade.

----Vocês lembram quando o Betão morreu afogado? Pois o Pedrinho da gráfica disse que alguns dias antes o Kalu comentou que havia visto o pássaro no telhado da casa dele!

----Eeee! Aquilo é mais mentiroso que não sei o que! Eu não acredito em nada que o Pedrinho fala!

As opiniões sempre se dividiam. Uns acreditavam outros não. Só sei que o Kalu acabou se tornando quase que uma lenda viva ali no bairro. Aquelas figurinhas carimbadas que fazem parte do dia a dia do farto folclore brasileiro. Cheio de lendas, magias, assombrações e personagens carismáticas iguais ao Kalu que sempre suscitam comentários polêmicos e contraditórios.
Em uma certa manhã de outubro o Kalu parou em frente ao bar da Dona Quita e ficou ali caladão como sempre. Perceberam que ele estava meio inquieto dando a impressão que queria falar alguma coisa.

----Fala Kalu! Parece que você está querendo nos contar alguma coisa! E por falar nisso, você não viu mais o seu amigo agourento?

O Kalu não respondeu. Manteve-se calado, apenas prendendo com os olhos todos que ali estavam. O pessoal continuou a conversa e acabaram por se esquecer do Kalu. Já fazia um tempinho que estavam conversando quando foram interrompidos por ele.

----Essa noite eu vi o pássaro. O Excomungado estava no telhado de uma casa aqui perto. -Resmungou o Kalu.

Apesar de alguns não acreditarem nele, um silêncio quase fúnebre pairou no ar, seguido de um friozinho aterrorizante que percorreu a espinha daquela meia dúzia de pessoas que conversavam ali no bar.

----De quem era a casa? -Perguntou um deles.

Novamente ele se manteve calado. Suspirou profundamente limitando-se apenas em olhar àquelas pessoas que agora demonstravam uma mistura de incredulidade e de medo.
Virou as costas e foi embora. Por algum motivo não quis dizer em qual casa ele havia visto o maldito pássaro. Um silêncio quase patético se apoderou daquelas pessoas que agora se entreolhavam desconfiadas, pois perceberam que o Kalu não quis falar nada porque, com certeza, havia visto o pássaro no telhado da casa de um deles.

----Pode contar que a gente vai ter notícia ruim nos próximos dias! -Comentou um deles quebrando o silêncio.

----Larga mão de ser besta! Você acredita nessas coisas! Onde já se viu... um passarinho que vem avisar um retardado que alguém vai morrer! -Argumentou outro.

----Sei lá! Quando acontece só uma vez a gente nem dá atenção, mas o pior é que eu conheço esse cara já faz uns trinta anos, e toda vez que ele diz ter visto esse maldito pássaro, pode contar que morre alguém. -Dizia outro.

A Dona Quita também entrou na conversa.

----Eu mesmo já presenciei umas três ou quatro vezes ele prever, aqui na minha frente, a morte de alguém e realmente acontecer.

----Gente que é isso? Que conversa mais besta! Vocês me desculpem mas eu também não acredito nisso não! -Retrucou um deles.

----Eu acredito sim! Esse cara tem parte com o diabo! – Bradou categoricamente outro.
A conversa se prolongou por mais alguns minutos, com uns dizendo que acreditava e outros dizendo que era tudo besteira. Apesar dos contras e dos prós, no fundo, no fundo, todos ali tinham medo das previsões fúnebres do Kalu. E por incrível que pareça mais uma vez ele acertou. O Seu Agenor, que era o que mais duvidava do Kalu, passou mal no outro dia e tiveram que levar ele as pressas para o hospital. Logo depois do almoço veio a notícia que o homem havia falecido. Não é preciso nem dizer que aquilo serviu de comentários para vários meses.
As pessoas passaram a evitar o Kalu. Toda vez que ele chegava o pessoal disfarçava e ia embora deixando ele ali sozinho.
Até que um dia o Kalu apareceu ali na rua com uma mala nas mãos, despedindo-se de todo mundo.

----Ué Kalu prá onde você vai? -Perguntou Dona Quita.

----Pernambuco! -Respondeu ele.

----Pernambuco? Vai fazer o que Lá!

----Tá com quase quarenta anos que eu deixei a minha cidadezinha. Nem sei se ainda tenho parentes vivo por aquelas bandas. -Respondeu.

----E que foi que te deu na cabeça de querer voltar para lá?

Ele não respondeu nada. Apenas olhou para as pessoas que estavam a sua volta, acenou com uma das mãos e foi embora. Assim que ele sumiu lá no fim da rua, o seu João sapateiro comentou.
----Hoje cedo ele me confidenciou que, durante a madrugada, ouviu um barulho estranho no quintal e quando saiu deu de cara com o pássaro em cima do telhado da sua casa. O pássaro cantou o seu canto maldito por alguns minutos, depois num vôo rasante passou feito um corisco sobre a sua cabeça e desapareceu.

Nenhum vizinho sabia em que cidade de Pernambuco morava a sua família, e tão pouco se preocuparam em querer saber. Na verdade sentiram-se até aliviados quando ele foi embora. Uns acreditavam, outros não. Porém uma coisa era certa; imperava ali uma grande certeza: todos tinham medo dele. E depois que ele partiu, assim que o maldito pássaro previu a sua própria morte, ninguém mais teve notícias do Kalu.

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