quarta-feira, 24 de novembro de 2010

* VOCÊ NÃO SABE O QUE É CONSCIÊNCIA

VOCÊ NÃO SABE O QUE É CONSCIÊNCIA
Ivan Ferretti Machado

Ano passado encontrei-me com o Tião Budega, ali na 25 de Março, região central de São Paulo. Fazia um calor de mais ou menos uns 30º, e o Tião estava parado próximo a uma banca de jornal com o seu isopor vendendo refri e cerveja. O Tião é um alemãozinho encruado, de mais ou menos 40 anos, sossegado como ele só. Dizem os amigos que uma vez o deixaram tomando conta de duas tartarugas, e por incrível que pareça uma fugiu e a outra morreu de tédio. Perguntei ao Tiãozinho como é que estava a vida, e ele naquele sossego todo, me olhou mansamente e depois de alguns segundos respondeu que estava tudo mais ou menos bem.

----Ué, mas por que mais ou menos bem? --Perguntei

----Ah rapaz... Dias destes tive um prejuízo danado. Perdi toda a minha mercadoria!

----Não Brinca Tião! Foi o rapa?

----Que nada, foi um pessoal ali no Anhangabaú!

----Mas como aconteceu? Te roubaram na cara larga?

Nesse momento fomos interrompidos por um rapaz que pediu um refrigerante. O Tiãozinho atendeu o cliente e continuou a conversa.

----Pois então rapaz! Foi no feriado da Consciência Negra!

----Na semana passada, então? --Indaguei.

----Isso mesmo! Na semana passada! --Confirmou ele.

----E o que você estava fazendo ali pelos lados do Anhangabaú! Ali só tem nóia, boiola e prostituta!

----Eu sei, mas é que teve a festa da Consciência Negra, e eu fui até lá dá um trampo...

Parou novamente para atender a uma senhora, que perguntou como fazia para se chegar até a Galeria Pagé. Dava até sono de ver ele dando explicação. Meu Deus do céu como podia ser tão sossegado daquele jeito.
Diziam, os mesmos amigos, que o Tião pra morrer de repente levaria umas duas semanas.
Depois de ter explicado pra coitada da mulher, que se tivesse saco, teria ficado com ele cheio, retornou a conversa.

----Ai eu cheguei lá no Anhangabaú mais ou menos às duas horas da tarde, e já estava lotado. E logicamente, dia da consciência negra, tinha uma negraiada danada lá. E eu ali com o meu carrinho de isopor carregado até a boca de cerveja, pensei comigo: --Hoje eu lavo a égua!

----E tava um calorão danado no feriado, né! --Comentei com ele.

----Tava! E por isso mesmo eu achei que ia vender cerveja pra caramba ali no meio daquele mundaréu de gente. E eu rapaz, cai na besteira de entrar bem lá no meião, onde tava uma muvuca danada, e foi ai que aconteceu a merda.

----Não brinca Tião! --Interrompi já imaginando mais ou menos o que havia acontecido.

----Eu só sei que começou a juntar de gente em volta do carrinho, e eu muito besta pensei que eles queriam comprar. Que nada... Viraram o meu carrinho de pernas pro ar, e foi cerveja que voou pra tudo quanto era lado.
Rapaz eu só sei que se formou um salseiro danado, me roubaram toda a cerveja e a única coisa que eu consegui salvar foi o carrinho, pois o isopor eles arrebentaram tudo.

----Puxa vida Tião! Mais que zica da porra heim! --Comentei penalizado com a situação dele.

----Zica? Põe zica nisso! E vou te dizer mais uma coisa! O dia era da Consciência Negra, mas aqueles negrão ali... Não tinham consciência nenhuma!

Controlei-me ao máximo pra não me estourar de rir, pois seria muito engraçado se não tivesse sido tão trágico. Pelo menos para o Tião Budega, coitado.

* É A CARA DO PAI

É A CARA DO PAI
Ivan Ferretti Machado

Eu não sei de onde a Tia Nenê sacou aquela tirada. Eu só sei que tem neguinho dando risada até agora. Quem não gostou muito foi o Alexandre, que na hora, deu aquela risadinha amarela e depois fechou a cara.
O fato desenrolou-se no último domingo na casa da Tia Regina. A família ali toda reunida, comemorando o aniversário do Tio Pinga, que alias já fazia quase dez anos que vinha prometendo uma bendita churrascada, mas infelizmente durante esse tempo todo ficou só na promessa. Todavia agora ele resolveu tirar o cadeado do bolso e bancou o tão prometido boi na brasa.
E como eu havia comentado lá no começo da história, a família estava toda ali reunida, inclusive o Alexandre da Tia Fia, papai fresco, a criança nasceu há aproximadamente dois meses e ele estilo paizão coruja não parava um segundo de lamber a criança. E logicamente a família toda babando em cima do pequerrucho. Até que a certa altura o Alexandre se achou ser a última bolachinha do pacote quando alguém comentou que a criança era linda, e ele complementou dizendo:

---- È a cara do pai.

Foi ai, então, que a Tia Nenê gritou lá do fundo:

----Larga mão de ser besta! Não fica pondo complexo na criança!

Tem neguinho dando risada até agora.

*NEM DEPOIS DE MORTO

NEM DEPOIS DE MORTO
Ivan Ferretti Machado

Dias destes estávamos em uma rodinha, comentando vários assuntos, quando alguém se pronunciou sobre as injustiças cometidas contra certas pessoas, que só são homenageadas depois que morrem. Todos concordaram com a colocação feita pelo colega.
Realmente as pessoas deveriam ser homenageadas quando ainda vivas. Para que homenagens depois que se está a sete palmos de profundidade. O cara não vai presenciar bulufa alguma. Não vai receber nem um tapinha nas costas, nem vai ler nenhum comentário no recanto das letras feito por algum poeta que admirava o seu trabalho. Então prá que homenagens depois que o cara virou presunto.
O que se tem que fazer que seja feito em vida. Depois de morto eu quero mais é que se ferre a corneta do corneteiro.
Estávamos para bater o martelo, com o parecer unânime de todos sobre esse assunto, quando o Alfredinho, quase 80 anos sobre o esqueleto, "véio" maloqueiro como ele só, que apesar da idade, ainda curte bailes ali no "Carinhoso", "Cartola”, e "Casa do Sargento", salões famosos da paulicéia desvairada, se pronunciou ao contrário. Pedimos então que ele nos esclarecesse o motivo da sua discordância.
O Alfredinho com aquele seu jeitão sossegado, e com aquele sotaque meio italianado, começou a explicar o porquê de não concordar com os demais:

----Suponhamos que de repente, alguém da nossa comunidade, resolva fazer um movimento em prol da aprovação, na câmara dos vereadores, para que a nossa rua receba o nome do padre da nossa paróquia. Até ai tudo bem. O religioso ainda está vivo e o projeto foi aprovado. No dia da festa aparece uma banda tocando uns dobrados, rojões pra tudo quanto é lado e um monte de político querendo se aparecer. O padre sobe lá no palanque faz um discurso, o subprefeito faz outro, arma-se um puta de um auê, ai vai todo mundo dar tapinhas em suas costas e cumprimentá-lo. Certo?

----Certo! --concordamos com o Alfredinho.

----Pois bem... Depois de alguns meses, após essas frescuradas todas, acontece o que? Descobrem que o padre está envolvido com pedofilia! Pronto é jornal, televisão, rádio, internet e mais uma porrada de coisa. Resumindo... É assunto pra mais de mês!... E ai???

----Porra Alfredinho... Sabe que eu não tinha pensado nisso! - Exclamei, com certa surpresa!

----Não, né! Então vou te dar outro exemplo. Tem um monte de vereador ai, puxa-saco que só a porra, que de repente resolve mudar o nome da praça das laranjeiras não sei lá das quantas, de algum lugar qualquer da periferia, só para agradar algum juiz famoso, montado na bufunfa, dando ao logradouro o nome do figurão. E da mesma maneira, que aconteceu com o padre, acontece também com esse juiz. Aquela festança toda, enfeitam o pavão de tudo quanto é jeito, e ai, depois de alguns meses descobrem que o safado está envolvido com um monte de coisas erradas. Já pensou que baita desconforto; morar em uma praça onde a pessoa que lhe emprestou o nome é na verdade um puta de um salafrário!

E realmente, no final, todos acabaram por concordar com o Alfredinho. È melhor esperar o cara morrer para se ter a certeza que ele não vai

aprontar nenhuma cagada depois de homenageado.
O Joel, após concordar com o Alfredinho, brincou com ele:

----Nós estávamos pensando em por o seu nome aqui na nossa rua, mas pensando bem é melhor esperar você morrer primeiro. Vai que a gente faz uma tremenda de uma festa em sua homenagem, e depois de alguns meses pegam você dando o rabo ai pra alguém! Já pensou que mancada?

----Ehhh! Sai prá lá! Aqui não, meu! -- Esbravejou o Alfredinho.

----Sei lá! Dizem que o tesão nunca acaba, ele só muda de lugar!

----È, mais aqui não vai mudar não! Pode tirar o seu Cavalinho da chuva!
Aqui... Meu filho... Nem depois de morto!

Depois de muita risada, mudamos de assunto e continuamos a conversa.



segunda-feira, 22 de novembro de 2010

* O ESPIRRO FATAL

O ESPIRRO FATAL
Ivan Ferretti Machado

Na minha época, há muitos anos, e já faz anos para caramba, estudávamos até o quarto ano primário, conhecido atualmente pelo apelido de quarta série do fundamental I, e já recebíamos um diploma. A maioria parava por ai mesmo e zéfini. Um ou outro seguia em frente e se formava no ginásio, quando, então, recebiam um outro diploma que era o da oitava série ginasial, e pronto, o cara já era considerado um doutor.
Pois bem esse caso que conto agora, ocorreu exatamente com os alunos do quarto ano primário.
Quase no fim do segundo semestre, a professora Terezinha adoeceu, e mandaram uma outra professorinha para substituí-la. Uma jovem, muito bonita por sinal, aparentando ter mais ou menos uns 19 anos. Já no primeiro dia, a professorinha começou com uma espirração danada dentro da sala de aula, que não acabava mais. A pobrezinha era alérgica a aquele terrível pozinho produzido pelo bastão de giz. E toda vez que ela espirrava, pronto, era aquela zoeira. A sala, a um só coro, berrava saúde para ela. Era mais pela tiração de sarro, que pela educação.
Passou-se quase uma semana com aquela farra-do-boi abestaiada. Era só a professora espirrar e a sala se transformava num verdadeiro salseiro. Até que ela, ao perceber que já estava virando
bagunça, resolveu por um ponto final naquilo. Explicou a todos que ela era alérgica ao pó de giz, e que por isso não seria mais necessário gritar saúde toda vez que ela espirra-se. Só que, justo
neste dia, o Robertinho, que sentava lá fundo, faltou à aula, e consequentemente não ficou sabendo do comunicado que a professorinha havia passado.
Tudo bem, no outro dia o Robertinho apareceu, e assim que tocou o sinal, todos os alunos formaram a fila e entraram para a sala de aula, acompanhados da professora. Assim que ela terminou de fazer a chamada, corrigiu os deveres de casa, e dirigiu-se a lousa para passar a lição do dia. Pronto... Foi só ela começar a escrever, e não passou quase nada, já deu um tremendo de um espirro. Todos já sabiam que não era mais para gritar saúde, e por isso cada um ficou na sua, menos o pobre do Robertinho que havia faltado no dia anterior, e lá do fundo, educadamente, berrou:

----Foda-se!!!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

* OLHAR MISTERIOSO

Olhar misterioso
Ivan Ferretti Machado

Esse caso quem gostava muito de contar era meu finado pai. Que Deus o tenha em bom lugar.
Aconteceu ali pelos lados de Mococa, interior de São Paulo, na Fazenda Amália. È do tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça. O ano deveria ser mais ou menos 1950.
O compadre Zé Gregório vinha vindo da cidade, já com umas cachaça na moringa, altas horas, beirando quase meia-noite. E naquela época as pessoas do interior tinham uma mania danada de ver assombração. Era alma penada, mula sem cabeça, Saci-Pererê, corpo seco, caixão de defunto, lobisomem e mais um montão de coisas que quando se juntavam pra contar varavam a noite. E juravam de pés juntos que era tudo verdade.
Pois bem, a certa altura do caminho, numa estradinha de terra batida, uma escuridão danada, pois naquele tempo, pelo menos ali, não existia ainda luz elétrica, era tudo na base da lamparina, e o compadre Zé Gregório, que por sinal era um baita de um cagão, e morria de medo de assombração, vinha a passos apressados para chegar logo em casa, ali na fazenda Amália.
De repente ele avistou lá longe um par de zóio, parecendo duas brasas que vinham voando em sua direção. E aquilo foi se aproximando e aumentando cada vez mais de tamanho, iluminando tudo a sua volta, deixando, a certa altura, o Compadre Zé Gregório completamente às cegas com aquele clarão que lhe bateu em cheio na cara.
O compadre não pensou duas vezes, desembalou pelo meio do mato, numa carreira doida, arrebentando tudo que era galho que encontrava pela frente. Só parou quando chegou na sede da fazenda, gritando feito um doido, todo mijado e com a cara e braços todo arranhado, resultado da carreira doida que dera pelo meio do mato.
E é lógico, com aquele barulhão todo que fez, acabou acordando todo mundo ali na fazenda, que vieram correndo ver o que estava acontecendo. O coitado do Compadre Zé Gregório mal conseguia falar. A muito custo conseguiu explicar o que havia acontecido.

----Eu vinha vindo ali pela estrada e, quando cheguei perto do açude, dei de cara com um bicho com dois zoião deste tamanho que pareciam duas enormes brasas. O bicho veio pra cima de mim rosnando feito um doido, e se eu não corro pro meio do mato não estaria aqui agora contando esta história.

O compadre Tuniquinho ao ouvir aquilo caiu na gargalhada.

----Larga mão de ser besta cumpadre! Que bicho que nada! O que o senhor viu foi um oitonóvel!

O compadre Zé Gregório retrucou na hora:

----Que oito ou nove... eram só dois zóio!

Coitado do compadre Zé Gregório! Nunca tinha visto um automóvel em toda a sua vida!

domingo, 27 de junho de 2010

* A BESTA FERA DO SERTÃO

A besta fera do sertão
Ivan Ferretti Machado

Esse caso aconteceu há muitos anos atrás, em uma cidadezinha brasileira, encravada ali pelo sertão nordestino. E devido à quantidade de anos que já se passaram, não consigo recordar-me claramente do nome da cidade e nem os nomes das pessoas. Todavia isso não vem ao caso porque também não sou muito de dar nomes verdadeiros aos
personagens das minhas histórias.
Existia nesse lugar, um tal de Coronel Malaquias,
dono de uma enorme extensão de terra ali naquela região. E tudo começou a ficar meio complicado para esse tal de Coronel Malaquias, quando o progresso começou a chegar por aquelas bandas. Por seu azar uma estrada de ferro foi construída por ali e dividiu as suas terras ao meio. A princípio ele até gostou, pois com certeza iria valorizar as suas terras. Só que com o passar do tempo começaram a surgir os problemas. Toda vez que o trem passava, morria atropelado de dois a três animais do seu rebanho.

----Desse jeito eu tô ferrado!
Cada vez que o trem passa ele mata os meus bichos!--Reclamou o coronel com o seu capataz.

----E hoje cedo morreram mais dois! --Explicou-lhe o capataz.

----Puta que pariu! Não tô dizendo! A gente tem que dar um jeito!

----Ué! Mas fazer o quê coronel? Amarrar eles na hora que o trem
passar não dá! Tem mais de trezentas cabeças de gado!

----Eu sei que não dá! Não precisa me dizer isso por que eu não
sou burro não. Nós vamos fazer o seguinte; me contrata um cabra, que seja
de pouca paga, prá ficar ali tomando conta do rebanho quando o trem passar.

----È... pode ser que de certo, coronel! É só ele ficar de olho e não deixar
o rebanho ficar muito perto dos trilhos do trem. -- concordou o capataz.

E sendo assim, no mesmo dia, arrumaram um cabra prá tomar conta
do rebanho quando o trem passasse. Um tal de Zeca Zarolho. Um pobre
coitado do "zóio" tudo torto, feio que dava dó. Daqueles cabras bem
chucro mesmo, completamente analfabeto e que não sabia nem mesmo
conversar direito. E o pior de tudo; nunca tinha visto um trem em toda
a sua vida.
E lá foi o pobre diabo cumprir a sua missão. Apenas explicaram prá ele
que era pra tomar conta do rebanho quando o trem passasse. E o
descambelhado ficou ali matutando consigo mesmo, que diacho de
bicho era aquele que já havia matado mais de vinte animais. Segurou
firme a espingarda, correu os olhos pelo descampado e murmurou:

----Cruz credo! Que Deus me proteja desse bicho! Num quero nem

saber... se o lazarento aparecer por aqui eu prego fogo!

E tava ele ali pensando com seus botões, quando ouviu lá longe um apito

meio estranho. E aquilo foi chegando e aumentando cada vez mais o
barulho. Era o trem que vinha se aproximando. Apitando, soltando
fumaça, e fazendo uma barulheira desgraçada à medida que se
aproximava.
Ah, não deu outra! O coitado do Zeca Zarolho se cagou todo. Largou a

sua espingardinha e saiu numa carreira tão desgraçada, que só parou
quando encontrou o capataz que vinha vindo para verificar se estava
tudo bem.
O coronel quase teve um enfarte. Desta vez morreram seis animais.

----Me chamem esse desgraçado que eu quero falar com ele!-- ordenou o
coronel.

Trouxeram o infeliz à presença do coronel.

----Ô seu cabra bexiguento de uma figa! Eu te coloco lá pra tomar conta

do meu rebanho e você abandona o seu posto deixando que seis animais
morressem atropelados! Seu cabra safado... incompetente!

O coitado do homem com os olhos esbugalhados e tremendo, ainda,

feito vara verde tentou se justificar.

----Coronel... se o senhor visse o tamanho do bicho que vinha vindo em

minha direção soltando fumaça pelas ventas, prá tudo quanto era lado,
e urrando feito um demônio abestaiado, com certeza teria feito a
mesma coisa. E te digo mais; a minha sorte é que o bicho vinha vindo de
cumprido, por que se ele vem de atravessado tinha era matado eu com
boiada e tudo!





* A MESMA MERDA

A MESMA MERDA
Ivan Ferretti Machado

Os dois compadres encontraram-se, naquela manhã de domingo, ali na vendinha do Seu Anacleto e, após os cumprimentos costumeiros, começaram a bebericar umas cangebrinas e a papear aquelas conversinhas corriqueiras de todos os dias. Prosa vai prosa vem, e de repente, do nada, um dos compadres começa com uma conversa meio sem pé e sem cabeça.

----Sabe... cumpadre Bastião, eu tô aqui pensando cus meus botões um
troço meio engraçado!

----Uai cumpadre! Pensando o quê?

----Sabe o que é cumpadre... nóis tá qui cunversando numa boa, sem
prercupação nenhuma e... sei lá... de repente te dá um troço e vós mecê morre!

----Vichi cumpadre! Sê tá ficando doido? Vira essa boca prá lá sô!!!

----Não, cumpadre Bastião, é só de cumparação cunquê eu pensei!

----Uai! Mais num tem outra coisa mió pra se pensar não!

----È qui vós mecê num intendeu ainda qui é só de brincadeirinha!

----Ah bom! Se é só brincadeirinha então continua a história!

----Sim... conforme eu tava dizendo... te deu um troço e vós mecê
morreu. Ai, então, depois daquela choradeira toda, a gente vai e te enterra. Tá escutando compadre Bastião?

----É lógico que tô! Eu não sou surdo!

----Pois bem! Depois de enterrado, vós mecê, fica ali debaixo da terra
apodrecendo e acaba virando adubo pra terra. Certo!

----Certo!

----Ai, então, depois de um certo tempo nasce na sua cova uma grama
bem verdinha. E de repente vem uma vaca e come toda a grama da sua cova. Logicamente como tudo que entra tem que sair, numa certa hora a vaca dá uma cagada e solta àquele baita monte no chão. Eu olho para aquilo espantado e comento:

----Nossa cumpadre como o senhor mudou!

O compadre Bastião ouviu toda aquela história pacientemente e no
final apenas olhou matreiro, com o canto dos olhos, para o outro compadre e não disse nada. Apenas tirou do bolso, o seu cigarro de palha, acendeu, deu uma tragada e uma guspida pro lado e arrematou:

----Sabe cumpadre Vitalino, dias desse eu pensei a mesma coisinha que
o senhor!

----È mesmo cumpadre? Num brinca! E como foi?

----Eu pensei o seguinte: O senhor tá ai bonzinho cunversando e de
repente te dá um troço e vós mecê morre. Ai, então, depois daquela choradeira toda, iguarzinho no meu velório, a gente vai e te enterra. Depois o senhor fica ali apodrecendo até virá adubo prá terra, e após algum tempo nasce, também, na sua cova uma grama bem verdinha. Certo?

----Certo!

----Pois bem, ai então, da mesma maneira, aparece uma vaca e come

toda aquela grama que havia nascido na sua cova. E como vós mecê
mesmo havia dito, tudo que entra tem que sair... de repente a vaca dá uma tremenda de uma cagada e solta àquele baita monte no chão. Eu olho para aquilo sem nenhuma surpresa e comento em voz alta:

----Nossa cumpadre!. Vós mecê num mudou nada! Continua a mesma merda!!!



* O HOMEM QUE NUNCA ERROU

O homem que nunca errou
Ivan Ferretti Machado

Certo dia um Padre passava por uma cidadezinha quando percebeu um grande alvoroço próximo a uma praça daquele pacato lugar. Aproximou-se curioso para ver o que estava acontecendo. Vários pessoas seguravam um pobre homem querendo amarrá-lo a um poste. O infeliz debatia-se desesperadamente na tentativa de desvencilhar-se de seus agressores. O padre ao presenciar aquela cena correu em seu auxílio.

----Parem! Parem! O que estão fazendo?

Um dos homens adiantou-se e respondeu:

----Nós vamos apedrejar esse pecador!

O padre ao ouvir aquilo opôs-se de imediato.

----Voces estão ficando loucos? Onde já se viu apedrejar um ser humano! Parem com isso!

Um outro homem adiantou-se , também, e retrucou:

----Este homem é um pecador! Tem que pagar pelo seu erro!

O bom padre tentou argumentar:

----Muito bem! Voces estão dizendo que este homem tem que pagar pelo seu erro! Pois então que atire a primeira pedra aquele que nunca errou!

Derrepente sai, do meio da multidão, um homem e dá uma tremenda de uma pedrada na cabeça do pobre infeliz. O padre, num mixto de surpresa e perplexidade, se interpôs entre o agressor e o pobre do homem atingido pela pedrada, que agora sangrava às bicas.

----Você é doido! Onde já se viu tremenda maldade! Por acaso você nunca errou em sua vida!

O homem, completamente embebecido de vaidade, respondeu:

----Ah seu padre! Numa distância dessa eu não erro nem fodendo!

terça-feira, 8 de junho de 2010

* A LETRA "P"


A LETRA "P"
Ivan Ferretti Machado
Pedro Paulo Pereira Pinto, pequeno pintor português, pintava portas, paredes, portais. Porém, pediu para parar porque preferiu pintar panfletos. Partindo para Piracicaba, pintou prateleiras para poder progredir.
Posteriormente, partiu para Pirapora. Pernoitando, prosseguiu para Paranavaí, pois pretendia praticar pinturas para pessoas pobres. Porém, pouco praticou, porque Padre Paulo pediu para pintar panelas, porém posteriormente pintou pratos para poder pagar promessas.
Pálido, porém personalizado, preferiu partir para Portugal para pedir permissão para papai para permanecer praticando pinturas, preferindo, portanto, Paris.
Partindo para Paris, passou pelos Pirineus, pois pretendia pintá-los. Pareciam plácidos, porém, pesaroso, percebeu penhascos pedregosos, preferindo pintá-los parcialmente, pois perigosas pedras pareciam precipitar-se principalmente pelo Pico, porque pastores passavam pelas picadas para pedirem pousada, provocando provavelmente pequenas perfurações, pois, pelo passo percorriam, permanentemente, possantes potrancas.
Pisando Paris, pediu permissão para pintar palácios pomposos, procurando pontos pitorescos, pois, para pintar pobreza, precisaria percorrer pontos perigosos, pestilentos, perniciosos, preferindo Pedro Paulo precaver-se.
Profundas privações passou Pedro Paulo. Pensava poder prosseguir pintando, porém, pretas previsões passavam pelo pensamento, provocando profundos pesares, principalmente por pretender partir prontamente para Portugal. Povo previdente! Pensava Pedro Paulo... Preciso partir para Portugal porque pedem para prestigiar patrícios, pintando principais portos portugueses. - Paris! Paris! Proferiu Pedro Paulo.
Parto, porém penso pintá-la permanentemente, pois pretendo progredir. Pisando Portugal, Pedro Paulo procurou pelos pais, porém, papai Procópio partira para Província. Pedindo provisões, partiu prontamente, pois precisava pedir permissão para papai Procópio para prosseguir praticando pinturas.
Profundamente pálido, perfez percurso percorrido pelo pai. Pedindo permissão, penetrou pelo portão principal. Porém, papai Procópio puxando-o pelo pescoço proferiu: Pediste permissão para praticar pintura, porém, praticando, pintas pior. Primo Pinduca pintou perfeitamente prima Petúnia. Porque pintas porcarias? Papai - proferiu Pedro Paulo - pinto porque permitiste, porém, preferindo, poderei procurar profissão própria para poder provar perseverança, pois pretendo permanecer por Portugal.
Pegando Pedro Paulo pelo pulso, penetrou pelo patamar, procurando pelos pertences, partiu prontamente, pois pretendia pôr Pedro Paulo para praticar profissão perfeita: pedreiro! Passando pela ponte precisaram pescar para poderem prosseguir peregrinando.
Primeiro, pegaram peixes pequenos, porém, passando pouco prazo, pegaram pacus, piaparas, pirarucus. Partindo pela picada próxima, pois pretendiam pernoitar pertinho, para procurar primo Péricles primeiro. Pisando por pedras pontudas, papai Procópio procurou Péricles, primo próximo, pedreiro profissional perfeito.
Poucas palavras proferiram, porém prometeu pagar pequena parcela para Péricles profissionalizar Pedro Paulo. Primeiramente Pedro Paulo pegava pedras, porém, Péricles pediu-lhe para pintar prédios, pois precisava pagar pintores práticos. Particularmente Pedro Paulo preferia pintar prédios.
Pereceu pintando prédios para Péricles, pois precipitou-se pelas paredes pintadas. Pobre Pedro Paulo pereceu pintando...
Permita-me, pois, pedir perdão pela paciência, pois pretendo parar para pensar... Para parar preciso pensar.
Pensei. Portanto, pronto parei.

E você ainda se acha o máximo quando consegue dizer:
"O Rato Roeu a Rica Roupa do Rei de Roma"

sábado, 8 de maio de 2010

Um crime quase imperfeito

UM CRIME QUASE IMPERFEITO
Ivan Ferretti Machado

—Pô maluco! Como é que você foi dar essa goela?
—Cê tá ligado que eu não tive culpa!
—Ela viu o dinheiro?
—É claro que viu. Eu tava com a pacoteira toda esparramada aqui em cima da mesa.

Heitor andou de um lado para o outro do corredor, parou diante de um vaso com avencas pendurado na parede, acendeu um cigarro e ficou observando a fumaça que subia em espiral rente ao muro.

—Do jeito que essa velha é futriqueira, há essa hora toda cidade já deve estar sabendo.
—Eu tenho um plano que talvez de certo.
—Que plano?
—Vem comigo. Eu te conto pelo caminho.

Heitor e Zé Gordo entraram na Pick-up e rumaram até a chácara do seu Venerando que ficava na entrada da cidade. Compraram dez sacos de estrume de vaca e voltaram pra casa. Pelo caminho Zé Gordo foi explicando o seu plano.
Assim que chegaram guardaram os sacos de estrume em um pequeno cômodo, que havia nos fundos da casa. Combinaram levantar de madrugada para porem o plano em ação. Ficaram conversando por mais algumas horas até que Zé Gordo resolveu ir dormir. Heitor ficou por ali zanzando mais um pouco enquanto fumava mais um cigarro.
Assim que terminou de fumar atirou a bituca em cima de um gato que vagabundeava pelo muro. O bichano deu um pulo pra traz, caiu sobre umas caixas amontoadas junto à parede e, feito um corisco, desapareceu pelo fundo do quintal.
Ali pelas quatro da matina Zé Gordo levantou-se e acordou o Heitor que roncava feito um porco de mangueirão.
Passaram uma água no rosto para espantar o sono e em seguida começaram a executar o plano.
Abriram os sacos de estrume e começaram a espalhar pelo telhado e pelo corredor da casa. Depois fizeram o mesmo na casa da velha xaropeta.
Ali pelas sete da manhã, Zé Gordo chamou pela velha através do muro.

—Dona Nésia! Ô Dona Nésia!

Assim que Dona Nésia abriu a porta dos fundos para ver o que Zé Gordo queria, ela quase caiu de costas.

—Deus do céu! Que é isso?
—Nossa Dona Nésia! A senhora não acordou com o barulhão da chuva que caiu essa noite?
—Chuva?
—Pois é Dona Nésia! Choveu bosta a noite toda. Olha só aqui o nosso quintal! Tem bosta pra todo lado.

Dona Nésia pôs a cabeça sobre o muro e arregalou os olhos.

—Minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, eu nunca tinha visto nada igual!
—Pois é Dona Nésia... nem eu também. Olha só os telhados como estão. Um merdeiro que dá até nojo.

Dona Nésia fez o sinal da cruz e correu pegar a vassoura pra limpar toda aquela sujeira.

—Calma Dona Nésia, eu e o Heitor já estamos limpando aqui desse lado, assim que a gente terminar nós limpamos seu quintal também.

Zé Gordo e Heitor limparam rapidinho os dois quintais, ensacaram toda aquela sujeira e levaram pro lixão que havia do outro lado da cidade.

—Será que vai dar certo Zé?
—Tem que dar, caso contrario a gente tá ferrado!

Voltaram pra casa, esconderam o dinheiro bem escondido e ficaram esperando pra ver no que ia dar.
Depois de alguns dias, como haviam previsto, receberam a visita do Doutor Vitalino, delegado da cidade.
O Heitor havia saído. Apenas o Zé Gordo estava em casa.

—Oi Doutor Vitalino! Tudo bem?
—Bom dia Zé! Eu preciso ter um dedinho de prosa com você.
—O senhor não quer entrar? Acabei de coar o café!

O Doutor Vitalino aceitou o convite.
Deteve-se por alguns segundos, observando a foto do seu Alfredo pendurada na parede da sala, enquanto tirava o casaco e o chapéu.

—Boa gente o seu pai. Que Deus o tenha em bom lugar.
—Obrigado Doutor Vitalino. Realmente ele nos faz uma falta muito grande.

Permaneceram em silêncio por alguns segundos até que o Doutor Vitalino resolveu ir direto ao assunto.

—Sabe o que é Zé... você logicamente ficou sabendo do roubo à Caixa Econômica, ocorrido na semana passada.

Zé Gordo, tentando demonstrar não ter se preocupado nem um pouco com aquela pergunta, tirou calmamente o maço de cigarros do bolso, acendeu um e ofereceu outro ao Doutor Vitalino, que de imediato fez um sinal negativo com uma das mãos dizendo que não fumava.

—Fiquei sabendo sim. Meio por cima... porque também não quis me aprofundar muito nos fatos, pois o senhor me conhece muito bem, não sou de ficar bisbilhotando muito as coisas.
—Faz você muito bem Zé. Pois aqui nessa cidade o que o povo mais gosta é de bisbilhotar.

O Doutor Vitalino passou as costas das mãos sobre o chapéu, como se estivesse tirando o pó, se ajeitou melhor na cadeira e recomeçou.

—Os danados fizeram um buraco na parede dos fundos, arrombaram o cofre e sumiram sem deixar nenhuma pista.

Zé Gordo fez cara de surpresa, fingindo não saber de nada.

—Caramba! Eu pensei que tivesse sido assalto a mão armada!
—Foi não. Eles fizeram o serviço de madrugada e muito bem feito. Coisa de profissional.

Zé Gordo procurava a todo custo manter-se calmo e a cada palavra arregalava os olhos como se tudo aquilo fosse novidade para ele.

—Mas que mal lhe pergunte Doutor Vitalino, onde é que eu entro nessa história toda?

Doutor Vitalino em seus muitos anos de janela procurava com toda sutileza que lhe era peculiar captar as reações do Zé Gordo enquanto falava pausadamente.
Ajeitou a gravata, passou as mãos pelo cabelo e olhando fixamente para ele continuou a conversa.

—Olha, o negócio é o seguinte... a sua vizinha aqui do lado andou comentando com o pessoal que dias destes viu você contando um monte de dinheiro aqui nos fundos do quintal.

Zé Gordo fez cara de descaso e começou a rir.

—Olha Doutor Vitalino, quem da atenção a louco é mais louco que o próprio louco.

Doutor Vitalino manteve-se em silêncio, procurando não deixar se envolver pelos argumentos do Zé Gordo.

—Olha Zé Gordo, apesar de nunca ter conversado com essa mulher, eu nunca percebi nenhuma doidura nela.
—Tai Doutor Vitalino... é porque o senhor nunca conversou com ela. Dois minutinhos de prosa e qualquer um percebe que a mulher é completamente doida.

Doutor Vitalino levantou-se, circulou um pouco pela sala, como se estivesse pensando em algo, deteve-se por alguns segundos olhando para os fundos da casa. Observou o muro, não muito alto, que dava para a casa da Dona Nésia.

—Gostaria de conversar com ela.

Zé Gordo levou o doutor Vitalino até o corredor fora da casa e chamou Dona Nésia.
Não precisou chamar duas vezes. Ela já estava ali escondidinha tentando ouvir a conversa.

—Oi Zé Gordo! Você me chamou?
—Chamei sim Dona Nésia. O Doutor Vitalino gostaria de ter uma conversa com a senhora.
—Pois não seu Doutor!
—Bom dia minha senhora! Tudo bem!
—Tudo bem!

Doutor Vitalino salpicou um canto de zóio sobre o Zé Gordo só pra ter a certeza de que ele não estaria tentando intimidar Dona Nésia com algum tipo de gesto.

—Bom minha senhora... eu gostaria de saber se é verdade que dias destes à senhora viu o Zé Gordo contando um monte de dinheiro aqui nos fundos?

Dona Nésia olhou meio sem graça para o Zé Gordo que fez cara de desaprovação, como fosse ele a pessoa mais inocente do mundo.
Doutor Vitalino insistiu.

—E então Dona Nésia! A senhora viu ou não viu?
—Olha seu Doutor eu não queria me meter nessa confusão, mas mentir também não posso! Então se é pra falar a verdade... eu vi sim!

Zé Gordo balançou a cabeça e deu um sorrisinho cínico, como se quisesse dizer que a mulher era louca.

—Dona Nésia eu acho que a senhora deve estar ficando biruta! Só pode ser!
—Ô Zé Gordo! Você não se lembra não! Eu nunca vi tanto dinheiro na minha vida como vi naquele dia!
—Mas quando foi isso Dona Nésia?
—Caramba Zé Gordo! E depois você diz que eu é que sou doida!
—E é verdade mesmo! A senhora pra sair com uma conversa dessa, só pode ter endoidado de vez!

Doutor Vitalino assistia a tudo aquilo, sem dizer nada. Tentava captar alguma coisa no ar que lhe desse alguma pista.

—Eu com toda minha idade ainda tenho a memória melhor que a sua.

Argumentou Dona Nésia. Doutor Vitalino interviu.

—Que dia foi que isso tudo aconteceu, Dona Nésia?
—Foi naquele dia que choveu bosta a noite toda!

Doutor Vitalino ficou ali parado com cara de quem não tinha entendido nada, enquanto Dona Nésia insistia em sua afirmação.

—O senhor não tá lembrado não Doutor Vitalino? Olha choveu tanta bosta naquele dia que o telhado e o quintal ficaram na pura merda!
—É claro eu acredito... deve ter sido terrível!
—Se foi terrível? O senhor nem imagina! Eu com meus oitenta anos de idade nunca tinha visto nada igual!

Doutor Vitalino olhou meio desolado para a cara do Zé Gordo, que começou a rir com ares de ironia.

—Tá bom Dona Nésia. É só isso. Obrigado pela colaboração.
—De nada Doutor. Precisando é só me chamar.

Os dois entraram e Dona Nésia continuou ali tentando ouvir mais alguma coisa.

—É você tem razão. A mulher é completamente louca. Peço-te desculpas pelo transtorno.
—Foi nada não Doutor Vitalino. O senhor apenas esta cumprindo sua obrigação.

Doutor Vitalino despediu-se e caminhou até a viatura, onde um policial o esperava ao volante. Entrou e acomodou-se no banco do passageiro.

—Você tá lembrado dia destes que choveu bosta a noite toda?
—Bosta?
—É bosta. Você não sabe o que é bosta? Aquele negócio mole e fedido!

O policial ficou olhando pra cara do Doutor Vitalino sem entender merda nenhuma.
Doutor Vitalino apontou com o dedo para o fim da rua e ordenou:

—Toca.

Um anjo de asas quebradas

Um anjo de asas quebradas
Ivan Ferretti Machado

O Genésio era aquele tipo de pessoa que desde criança gostou de aprontar. Armava as suas presepadas e depois se rachava de rir vendo o resultado de suas danuras, que muitas vezes terminava em coisas nada agradáveis.
Mas o que ele estava querendo fazer agora, ultrapassava um pouco, ou bastante, sei lá, as raias dos limites do que se pode, e do que não se pode.
Encontrara no meio da rua um talão de cheques, com uma folha ainda em branco. E não sei de onde ele tirou a idéia de aprontar uma brincadeira com o Padre Guerino.
Como bom samaritano, que na verdade nunca o foi, iria fazer uma vultosa doação para a “Santa Igreja Católica”.

—Sê tá ficando doido Genésio! Fazer esse tipo de brincadeira é total falta de responsabilidade. Pelo jeito você tá querendo ir pro inferno quando morrer.

—Que nada Zezão! É só uma brincadeirinha! Deus perdoa a gente!

—Perdoa uma ova! Isso é brincadeira de mau gosto e eu não quero participar disso não! Essa porra pode dar até cadeia.

—Larga mão de ser bunda mole, Zezão. Depois eu digo pro Padre Guerino que a gente tava só brincando.

—Que é isso Genésio! Você chama isso de brincadeira? Pra mim você deve tá ficando é xarope!

Por mais que o Zezão tentasse, não conseguiu impedir que o Genésio pusesse em prática o seu plano, que, diga-se de passagem, de um mau gosto terrível. Brincar com as pessoas, desde que não se firam sentimentos, é algo totalmente aceitável. Porém quando se invade delimitações que separam as fronteiras entre o tolerável e o intolerável, as cicatrizes deixadas por certos tipos de brincadeiras, às vezes perduram por toda uma vida. E aquilo que o Genésio estava querendo fazer era exatamente tudo isso. Puro sadismo.

—Bom dia Padre Guerino!

—Oi Genésio! Bom dia! Que bons ventos o trazem até esta humilde moradia?

Genésio olhou para os lados como se estivesse certificando-se de que ninguém os observava. Puro fingimento.

—Padre Guerino... a gente pode entrar?

—É claro! Você é da casa! Nem precisa pedir!

Padre Guerino passou os braços sobre o ombro do Genésio e o levou até a secretaria da paróquia.

—Mas afinal de contas que mistério é esse que exige tanto segredo?

Genésio tirou do bolso da camisa o cheque que estava dobrado em duas partes.

—O segredo está aqui neste pequeno pedaço de papel.

Esticou o braço e entregou o cheque ao Padre Guerino. O coitado quase teve um chilique ao ver o valor.

—Duzentos mil?!!!

—Fala baixo! O senhor tá querendo que o bairro inteiro fique sabendo?

O Padre Guerino colocou o óculos que estava pendurado ao pescoço, para certificar-se de que, realmente, era aquilo que havia lido.

—Pelo amor do Pai Santíssimo, onde foi que você arrumou isto?

—Olha Padre Guerino, eu vou contar para o senhor, mas é um segredo que ninguém pode saber. È que com essa onda de seqüestro todo cuidado é pouco.

—Mas o que foi? Você acertou na loteria?

—É exatamente isso! Peguei uma baita bolada! Nunca mais vou precisar trabalhar!

Padre Guerino se conteve para não dar risada da cara de pau do Genésio. Pois pelo que era do seu conhecimento o pilantra nunca trabalhou na vida.

—Deus seja louvado. E que ele te ilumine para que faças bom uso de todo esse dinheiro que ganhastes.

—Obrigado Padre Guerino. Esse cheque que eu estou doando para a igreja é para que vocês possam comprar um terreno para construção da creche.

Padre Guerino levantou-se e puxou o Genésio num abraço tão forte que quase lhe quebrou ao meio. Uma lágrima de terna felicidade rolou pelo rosto do pobre padre que aos poucos foi se transformando num choro compulsivo. O seu sonho, quase impossível, finalmente poderia ser realizado. A construção de uma creche para as crianças pobres do bairro.

—Obrigado meu filho. Que Deus te abençoe e te ilumine por toda sua existência.

—Não estou fazendo nada de mais Padre Guerino. Apenas estou fazendo o meu papel de bom cristão. Eu só gostaria de pedir um favor ao senhor!

----Pode pedir! Se estiver ao meu alcance com certeza eu o farei!

----Não é nada de mais! È que... caso alguém ver o cheque e perguntar se é meu, o senhor diz que esse Genésio é outra pessoa. Caso contrário vai ser um tal de todo mundo ir atrás de mim para pedir dinheiro emprestado que vou acabar perdendo o sossego.

----Pode ficar tranqüilo! Eu não digo nada prá ninguém!

O Padre Guerino abraçou novamente o Genésio, abençoando-o em nome de todos os santos que lhe veio à cabeça naquele momento. Depois pegou o cheque e com todo cuidado do mundo guardou-o no cofre e o trancou a sete chaves.
Conversaram por mais alguns minutos e antes de ir embora o Padre Guerino o abençoou por mais umas três vezes, prometendo que rezaria por ele todas as noites até os últimos minutos de sua vida.
E o destino que é danado igual menino, se incumbiu de armar todo resto dessa inconseqüente trama.
Naquele mesmo dia, no finzinho da tarde, por uma incrível coincidência, o Doutor Gustavo resolveu fazer uma visita ao Padre Guerino.

—Doutor Gustavo! Que coincidência maravilhosa! Eu estava pensando em passar na sua casa ainda esta noite para resolvermos um assunto de suma importância.

—É sobre o terreno?

—Exatamente! É sobre isso mesmo que eu quero conversar com você.

—A proposta ainda está em pé, Padre Guerino. Ele vale uns duzentos e cinqüenta mil. Porém como é para uma nobre causa, conforme o senhor me expôs noutro dia, e levando em conta a enorme consideração que tenho pelo senhor e pela Santa Igreja Católica, eu vendo o imóvel por cento e cinqüenta.

O padre Guerino apanhou o cheque que estava no cofre e mostrou para o Doutor Gustavo. Até mesmo ele que era montado na grana se surpreendeu com aquela quantia.

—Caramba Padre Guerino! Onde o senhor conseguiu todo esse dinheiro? Apesar de não ser da minha conta.

—Foi uma doação e a pessoa pediu pra guardar segredo.

--È do Genésio? O senhor tá querendo gozar com a minha cara Padre Guerino? --Perguntou o Doutor Gustavo, surpreso ao ler o nome no cheque.

--Calma Doutor Gustavo! Esse Genésio é outro! Esse ai é um conhecido meu que mora lá em São Caetano do sul, no ABC.

—Bom, Padre Guerino, eu pouco me importo com isso. O que me interessa é vender o terreno.

—Tá certo, o senhor quer vender e eu quero comprar. Gostaria de amanhã mesmo fechar o negócio.

Enquanto combinavam a venda do imóvel o Padre Guerino ofereceu um café para o Doutor Gustavo. Entre um gole e outro o Doutor foi explicando ao Padre Guerino como deveria ser feita a negociação.


—Bom, como eu ia lhe dizendo... devido aos desacertos entre eu e minha esposa, esse imóvel eu comprei, já há algum tempo, em nome de uma outra pessoa... o senhor entende como é que são essas coisas, né?

—Entendo sim Doutor Gustavo. Vocês são casados com comunhão de bens, e se o terreno estivesse em seu nome ela teria direito a metade do dinheiro. Correto?

—É isso ai. Ninguém sabe que eu tenho esse imóvel. Mas isso não vem ao caso. Só estou explicando para que, talvez, o senhor não pense que eu esteja querendo enrolar.

—Que é isso Doutor Gustavo. Por momento algum isso me passou pela cabeça.

—Pois bem, então amanhã mesmo a gente passa no cartório e ajeita toda a documentação.

Naquela noite o Padre Guerino quase não conseguiu dormir, devido à ansiedade que se apossara do pobre homem.
Custava acreditar no que estava acontecendo. Tudo aquilo parecia ser um sonho. Algo que pensara que só seria possível através de uma intervenção divina. E parece que os céus ouviram suas preces.
E assim foi feito. Fizeram toda a transação imobiliária e o Padre Guerino entregou o cheque de duzentos mil ao Doutor Gustavo, que lhe devolveu um outro de cinqüenta mil, restituindo a diferença referente ao valor combinado.
E como eu havia dito lá atrás, o destino realmente é mais danado do que a gente possa imaginar. No outro dia o Doutor Gustavo, passou na padaria para tomar um café e encontrou o Genésio tomando cerveja com uns amigos. Assim que entrou, o Genésio, lá do canto do balcão acenou para ele.

—Tudo bem Doutor?

—Oi Genésio! Foi bom te encontrar! Preciso falar com você!

Genésio pediu licença aos amigos e veio ao encontro do Doutor Gustavo.

—Como é que vai essa força toda, Doutor?

—Com as graças de Deus a gente vai tocando.

—Então tá bom.

O Doutor Gustavo pediu um café e ofereceu outro ao Genésio, que agradeceu dizendo não querer porque estava tomando cerveja.

—Sabe o que é Genésio, amanhã eu estou indo para o Rio de Janeiro resolver uns negócios, e como eu ando meio ruim das pernas preciso de alguém para dirigir o carro.

—Opa Doutor! Pode contar comigo!

Genésio não era nada bobo. Sabia muito bem que todas as vezes que prestava algum tipo de serviço ao Doutor Gustavo, pintava sempre uma graninha boa. E durango do jeito que estava aquilo viria em uma boa hora.

—Então esta combinado. Amanhã ali pela cinco a gente sai. Cinco da manhã! Não vai me aparecer lá às cinco da tarde igual você fez da outra vez!

—Pode ficar tranqüilo Doutor! Meia hora antes eu pinto no pedaço.

—Tá bom.

O Doutor Gustavo terminou de tomar o seu café e despediu-se do Genésio. Assim que ele saiu, o Genésio esfregou as mãos, estalou os dedos, e voltou todo sorridente para junto dos amigos.

—Ceará, abre mais duas geladas na minha conta, que pintou dinheiro na área!

No outro dia, conforme haviam combinado, o Genésio chegou à casa do Doutor Gustavo uns vinte minutos antes da hora marcada. Ajudou o Doutor a carregar umas caixas para dentro do carro e logo em seguida partiram.
E foi nessa hora que o destino começou a traçar as últimas linhas dessa trama recheada de irresponsabilidades, coincidências e fatos inesperados. Destinos tão diferentes e ao mesmo tempo tão paralelos, em que a vida parece desabrochar onde tudo termina, e o final da existência parece florescer onde tudo principia.
Já quase chegando ao Rio de Janeiro, o Doutor Gustavo, tirou de dentro da pasta que trazia consigo o cheque da transação do imóvel.

—Já viu tanto dinheiro assim, Genésio? E é de um xará seu!

O Genésio olhou para o cheque de duzentão e quase teve um catiripapo. Foi nessa fração de segundos que tudo aconteceu. Enquanto prestava atenção no cheque que o Doutor Gustavo lhe mostrava, Genésio não percebeu, logo à frente, uma carreta que irresponsavelmente, ultrapassava um ônibus bem ali naquela curva. O choque foi inevitável. Tudo aconteceu muito rápido. Foi um acidente horrível. Um estrondo ensurdecedor e em segundos o carro foi tomado pelas chamas.
Nunca se viu tanta gente em um sepultamento, como aconteceu naquele dia. Afinal tanto o Genésio quanto o Doutor Gustavo, eram pessoas popularíssimas ali no bairro.
Meses depois a creche foi inaugurada. Uma festa muito bonita. Teve hasteamento da bandeira brasileira e a execução do hino nacional pela banda da polícia militar.
Bem na entrada uma enorme placa de bronze, prestava uma homenagem com os seguintes dizeres:

“Homenagem póstumas ao Sr. Genésio Aluere da Silveira, a quem agradecemos pela doação deste imóvel, tornando possível a realização deste sonho. Que Deus o abençoe, e o tenha sempre junto de si ai no céu”.

Na fachada junto ao portão de entrada lia-se em letras garrafais o seguinte:

“CRECHE ASSISTENCIAL GENÉSIO ALUERE DA SILVEIRA”.

O Zezão depois de observar a tudo aquilo, ergueu os olhos para o céu e comentou baixinho:

—Genésio tu és um ordinário mesmo! Como é que pode um sujeito safado e vagabundo igual a você acabar virando herói? Tão te chamando de anjo! Só se for um anjo de asa quebrada!

Olhou para a foto do Genésio pendurada na parede da sala de recepção e teve a impressão que o filho da mãe havia piscado para ele.

—Eu acho que eu estou ficando doido!

O Zezão deixou a creche, naquele sábado ensolarado de Dezembro, e lá da rua ouviu, ainda, a banda que tocava um dobrado animando a festa lá dentro. Desceu a ladeira de paralelepípedos e parou por alguns segundos próximo a uma enorme paineira onde observou um casal de bem-te-vi, que pareciam zombar de tudo aquilo que estava acontecendo. Cumprimentou o verdureiro, que por sinal o Genésio ficara devendo quinze mangos e desapareceu lá embaixo onde a rua fazia uma curva sinuosa à direita.

Adivinha quem vai morrer amanhã?

Adivinha quem vai morrer amanhã?
Ivan Ferretti Machado

Ele odiava aquele pássaro. Chamava-o de bicho agourento. Força do mal. Filho do diabo. Toda vez que flagrava o pássaro sobre o telhado de alguma casa, pronto, podia contar que nos próximos dias alguém morreria naquele local.

----Mas que pássaro é esse Kalu? -Perguntavam para ele.

----Eu não sei o nome dele não! Não existe em livro nenhum escrito pelo homem! Já procurei e não consegui encontrar! Ele é todo preto e tem o cantar tão fúnebre que se assemelha com as noites de céu fechado, quando a gente não vê nem lua e nem estrelas. -Respondia ele.

O gozado é que ninguém nunca tinha visto o tal pássaro. O único que vez ou outra dizia tê-lo visto era o Kalu. As pessoas o achavam meio estranho, alguns até tinham medo dele, diziam que ele mexia com feitiçaria. Muitos dizem tê-lo visto várias vezes, de madrugada, vagando pelas ruas com seu inseparável cachorro preto, que atendia pelo nome de capeta.
Quase não conversava, e quando abria a boca era para falar sobre o tal pássaro. E por incrível que pareça ele nunca errava em suas previsões. Não falava direto para a pessoa, mas sempre comentava com alguém.

----Essa madrugada eu vi o agourento sobre o telhado da casa de fulano, pode contar que a gente vai ter notícia ruim nos próximos dias!

E não dava outra. Passavam-se alguns dias e morria alguém ali naquela casa.

----Caramba! Antes de ontem o Kalu comentou comigo que tinha visto o tal pássaro no telhado da casa do Moacir. Quando foi hoje cedo veio a notícia que o pai dele tinha falecido.

----Besteira! Eu não acredito nisso não! Foi pura coincidência!

Era sempre assim, toda vez que morria alguém, surgia a conversa de que o Kalu tinha visto o tal pássaro naquela casa. Uns acreditavam e defendiam com unhas e dentes as previsões agourentas do Kalu. Outros torciam o nariz e diziam que era tudo besteira. Nada daquilo era verdade.

----Vocês lembram quando o Betão morreu afogado? Pois o Pedrinho da gráfica disse que alguns dias antes o Kalu comentou que havia visto o pássaro no telhado da casa dele!

----Eeee! Aquilo é mais mentiroso que não sei o que! Eu não acredito em nada que o Pedrinho fala!

As opiniões sempre se dividiam. Uns acreditavam outros não. Só sei que o Kalu acabou se tornando quase que uma lenda viva ali no bairro. Aquelas figurinhas carimbadas que fazem parte do dia a dia do farto folclore brasileiro. Cheio de lendas, magias, assombrações e personagens carismáticas iguais ao Kalu que sempre suscitam comentários polêmicos e contraditórios.
Em uma certa manhã de outubro o Kalu parou em frente ao bar da Dona Quita e ficou ali caladão como sempre. Perceberam que ele estava meio inquieto dando a impressão que queria falar alguma coisa.

----Fala Kalu! Parece que você está querendo nos contar alguma coisa! E por falar nisso, você não viu mais o seu amigo agourento?

O Kalu não respondeu. Manteve-se calado, apenas prendendo com os olhos todos que ali estavam. O pessoal continuou a conversa e acabaram por se esquecer do Kalu. Já fazia um tempinho que estavam conversando quando foram interrompidos por ele.

----Essa noite eu vi o pássaro. O Excomungado estava no telhado de uma casa aqui perto. -Resmungou o Kalu.

Apesar de alguns não acreditarem nele, um silêncio quase fúnebre pairou no ar, seguido de um friozinho aterrorizante que percorreu a espinha daquela meia dúzia de pessoas que conversavam ali no bar.

----De quem era a casa? -Perguntou um deles.

Novamente ele se manteve calado. Suspirou profundamente limitando-se apenas em olhar àquelas pessoas que agora demonstravam uma mistura de incredulidade e de medo.
Virou as costas e foi embora. Por algum motivo não quis dizer em qual casa ele havia visto o maldito pássaro. Um silêncio quase patético se apoderou daquelas pessoas que agora se entreolhavam desconfiadas, pois perceberam que o Kalu não quis falar nada porque, com certeza, havia visto o pássaro no telhado da casa de um deles.

----Pode contar que a gente vai ter notícia ruim nos próximos dias! -Comentou um deles quebrando o silêncio.

----Larga mão de ser besta! Você acredita nessas coisas! Onde já se viu... um passarinho que vem avisar um retardado que alguém vai morrer! -Argumentou outro.

----Sei lá! Quando acontece só uma vez a gente nem dá atenção, mas o pior é que eu conheço esse cara já faz uns trinta anos, e toda vez que ele diz ter visto esse maldito pássaro, pode contar que morre alguém. -Dizia outro.

A Dona Quita também entrou na conversa.

----Eu mesmo já presenciei umas três ou quatro vezes ele prever, aqui na minha frente, a morte de alguém e realmente acontecer.

----Gente que é isso? Que conversa mais besta! Vocês me desculpem mas eu também não acredito nisso não! -Retrucou um deles.

----Eu acredito sim! Esse cara tem parte com o diabo! – Bradou categoricamente outro.
A conversa se prolongou por mais alguns minutos, com uns dizendo que acreditava e outros dizendo que era tudo besteira. Apesar dos contras e dos prós, no fundo, no fundo, todos ali tinham medo das previsões fúnebres do Kalu. E por incrível que pareça mais uma vez ele acertou. O Seu Agenor, que era o que mais duvidava do Kalu, passou mal no outro dia e tiveram que levar ele as pressas para o hospital. Logo depois do almoço veio a notícia que o homem havia falecido. Não é preciso nem dizer que aquilo serviu de comentários para vários meses.
As pessoas passaram a evitar o Kalu. Toda vez que ele chegava o pessoal disfarçava e ia embora deixando ele ali sozinho.
Até que um dia o Kalu apareceu ali na rua com uma mala nas mãos, despedindo-se de todo mundo.

----Ué Kalu prá onde você vai? -Perguntou Dona Quita.

----Pernambuco! -Respondeu ele.

----Pernambuco? Vai fazer o que Lá!

----Tá com quase quarenta anos que eu deixei a minha cidadezinha. Nem sei se ainda tenho parentes vivo por aquelas bandas. -Respondeu.

----E que foi que te deu na cabeça de querer voltar para lá?

Ele não respondeu nada. Apenas olhou para as pessoas que estavam a sua volta, acenou com uma das mãos e foi embora. Assim que ele sumiu lá no fim da rua, o seu João sapateiro comentou.
----Hoje cedo ele me confidenciou que, durante a madrugada, ouviu um barulho estranho no quintal e quando saiu deu de cara com o pássaro em cima do telhado da sua casa. O pássaro cantou o seu canto maldito por alguns minutos, depois num vôo rasante passou feito um corisco sobre a sua cabeça e desapareceu.

Nenhum vizinho sabia em que cidade de Pernambuco morava a sua família, e tão pouco se preocuparam em querer saber. Na verdade sentiram-se até aliviados quando ele foi embora. Uns acreditavam, outros não. Porém uma coisa era certa; imperava ali uma grande certeza: todos tinham medo dele. E depois que ele partiu, assim que o maldito pássaro previu a sua própria morte, ninguém mais teve notícias do Kalu.

A Benzedeira

A benzedeira
Ivan Ferretti Machado

Fevereiro de 1959. Há mais de um mês que a menina vinha apresentando aquele quadro de enfermidade contínuo, sem que os médicos conseguissem encontrar a cura para o seu mal. Febre de quase 40º, vômitos constantes e diarréia. Aquilo já não era mais um ser humano. Assemelhava-se mais a um cadáver, que qualquer outra coisa. Ela tinha apenas quatro aninhos e na época a medicina não tinha tantos recursos como nos dias de hoje.
As famílias, em sua maioria, quase sem condições alguma de consultar-se com um médico particular, que era algo comum entre as famílias abastardas da época, tinham como alternativa apenas os Sanatórinhos.
Dona Benedita levava a criança quase toda a semana para passar pelos médicos e nada dela melhorar. Já haviam feito vários exames e não conseguiam diagnosticar o mal que dizimava lentamente a pobre criança.
Depois de mais de um mês nesse vai e vem constante, sem conseguir resultado algum, um dos médicos entregou uma guia a Dona Benedita encaminhando a menina até a Santa Casa de Misericórdia.

----Olha Dona Benedita; o que nós podíamos ter feito, nós fizemos. O caso está fugindo ao nosso controle. É melhor a senhora levar a menina até a Santa Casa. Eles possuem mais recursos que nós.

A situação realmente agravava-se dia a dia. Dona Benedita já não tinha nem mais coragem de banhar a menina. Quem fazia isso era Dona Sebastiana, sua irmã, tia da pequena Maria Izabel.

----Parece um esqueleto. Não tenho mais coragem de vê-la sem as suas roupinhas. Ela vai morrer a qualquer instante. --Dizia, aos prantos, Dona Benedita.

Na sexta-feira, ela e o sogro levaram a menina até a Santa Casa. Após um exame superficial, um dos médicos entregou-lhe outra guia e pediu para que retornassem na segunda para passarem por um especialista, e já avisou que a menina talvez ficasse no isolamento, pois o caso dela parecia ser grave. Estava com jeito de ser alguma doença contagiosa.
Voltou para casa completamente arrasada. Um descaso sem proporções por parte dos médicos. A menina as portas da morte, e ao invés de a internarem imediatamente, pediram para que voltassem na segunda, pois não havia um especialista competente para que autorizasse a sua internação.
Seu coração de mãe parecia dizer-lhe que a menina não suportaria. Quase não havia mais vida naquele pequeno corpo, mirrado e esquelético.
Dona Edwirgen, que morava em frente, viu quando Dona Benedita chegou com aquele quase nada embrulhado em um cobertor e, chorando copiosamente, entrou em casa.
Depois de alguns minutos Dona Edwirgwen apareceu na porta daquela humilde moradia e cumprimentou a Dona Benedita.

----O que os médicos disseram? --Perguntou ela.

----O caso dela é grave! Mandaram a gente voltar na segunda e já me avisaram que ela vai ficar no isolamento!

----Mas porque já não internaram a menina hoje mesmo? --Indagou Dona Edwirgen.

----É que não havia um especialista para assinar a internação.

----Ué, primeiro vão esperar a menina morrer pra depois internar ela?!!!

----E o pior é que o meu coração parece dizer-me que ela não vai agüentar até segunda-feira. --Disse Dona Benedita, apoiando a cabeça sobre os joelhos tentando abafar o choro.

Dona Edwirgen entrou e pegou a menina no colo. Sentou-se na beirada da cama e a desembrulhou. Franziu a testa ao ver o estado deplorável da menina.

----Essa menina não vai agüentar muito tempo não. Você não quer levar ela em uma benzedeira que eu conheço lá na Vila Ivegê? --Perguntou Dona Edwirgen.

Dona Benedita baixou a cabeça e não respondeu nada. Na verdade ela não acreditava naquelas coisas.

----A mulher tem uma força espiritual muito grande. Já curou muito gente com suas rezas. Além do mais você não tem nada a perder, pois pelo estado em que se encontra a pequena Izabel não acredito que tenha muito tempo de vida não.

Seu sogro, que se mantivera calado até então, resolveu entrar na conversa.

----Se a Benedita não quiser ir, pode deixar que eu vou! Se for em nome de Deus que essa benzedeira cura, eu é que não vou entregar a menina pra diabo nenhum de médico que até agora não fizeram nada.

----Tá bom! Se vocês querem ir então vamos. Não quero passar o resto de minha vida carregando essa culpa. --Desabafou Dona Benedita.

Pegaram o ônibus e foram embora. Depois de quase quarenta minutos desceram em um lugar, que na época ainda estava começando a ser loteado. Quase não havia casas construídas. Desceram por uma rua de terra batida, como eram quase todas as ruas da periferia de São Paulo em 1959. Chegaram em frente a um portão, de onde se avistava, lá no fundo do quintal, uma casinha rodeada por um pomar, que sombreava todo o terreiro em volta daquela humilde moradia. Um senhor os atendeu e pediu para que entrassem. Várias pessoas permaneciam do lado de fora da casa esperando para serem atendidas. Dona Benedita espiou por uma das janelas e avistou uma senhora sentada em um banquinho, vestida toda de branco e envolta por uma densa fumaça produzida por incensos colocados em vasilhas a sua volta. Naquele momento ela estava benzendo uma moça de aproximadamente uns vinte e cinco anos.
Havia ali umas quinze pessoas esperando para serem atendidas. Depois de mais ou menos uns vinte minutos de espera a menina começou a estremecer, virou os olhos e ficou completamente largada dando a impressão que havia morrido. Dona Benedita entrou em pânico e começou a gritar:

-----Minha filha morreu! Minha filha morreu! Eu sabia que ela não ia agüentar!

Lá de dentro da casa a benzedeira gritou:

---- Ela não está morta não! Traga ela aqui para mim!

Rapidamente um dos tarefeiros da casa tomou a menina nos braços e a levou de imediato até a benzedeira. Ela apertou a menina levemente junto ao peito e começou a orar. Depois de uns quinze minutos de oração em voz baixa pediu para que a mãe da menina entrasse.

----Pode ficar sossegada que ela não vai morrer não! A senhora faz o seguinte: Assim que chegar em casa faz um chá de canela e dá pra menina beber com uma cibalena inteira. Amanhã a senhora faz um chá de hortelã e também da pra menina beber novamente com uma cibalena, e depois no outro dia a senhora torna a dar para ela o chá de hortelã com cibalena outra vez. No quarto dia a senhora compra um vidro de licor de cacau e vai dando pra ela uma vez ao dia. Pode ficar tranqüila que com o passar dos dias esse mal que se acercou da menina irá embora da mesma maneira que chegou. E não se esqueça de rezar sempre à noite, antes de dormir, junto ao seu bercinho, pedindo a Jesus que tome conta dela.

Assim que voltaram para casa, Dona Benedita, apesar de sua incredulidade, fez tudo conforme a benzedeira havia recomendado. E como que por um milagre, no fim do terceiro dia, a febre da menina havia desaparecido. No outro dia cedo acordou com a menina chamando por ela, pedindo mamadeira. Dona Benedita não conteve o pranto. Depois de mais de um mês ouvia novamente a voz da filha. Ela preparou uma mamadeira bem reforçada e deu para a menina, esperando que, como das outras vezes, ela fosse vomitar novamente, pois nada parava em seu estomago. Só que dessa vez ela não vomitou. Dona Benedita pediu ao sogro que fosse comprar o licor de cacau. Nos dias que se seguiram a menina pôs para fora, através de suas fezes, uma quantidade enorme de lombrigas. Em pouco tempo estava recuperada. Hoje a menina que foi desenganada pelos médicos e salva pela benzedeira da Vila Ivegê, zona leste de São Paulo, já é avó. A ela, que infelizmente, nem sabe o nome dessa santa mulher, resta apenas o compromisso de orar, todas as noites, em agradecimento há quem um dia lhe salvou a vida sem lhe cobrar um tostão sequer, pois era assim que agiam, naquela época, as benzedeiras que hoje não existem mais, pois a modernidade e as religiões dos dias atuais não permitem, pelo menos nas grandes metrópoles, a existência dessas pessoas.